Berat é património UNESCO desde 2008. Guia das mil janelas, castelo habitado, igrejas de Onufri e adegas Cobo, Alpeta e Nurellari. Viagens a partir de Lisboa.
Existem destinos que parecem inventados. Berat é um deles. Esta cidade do sul da Albânia, com 40.665 habitantes e 2.700 anos de história continuada, transporta o nome “Antipatreia” desde os ilírios do século VII a.C. e mantém muralhas de fortaleza que viram passar romanos, búlgaros, bizantinos, otomanos e Skanderbeg. Em 2008 a UNESCO inscreveu Berat na sua lista do Património Mundial pela paisagem urbana otomana quase intacta: os bairros de Mangalem e Gorica, com casas de pedra empilhadas, fachadas com fileiras de janelas estreitas que valeram à cidade a alcunha de “cidade das mil janelas”. Para o viajante português, Berat é talvez a cidade albanesa que mais se aproxima da experiência descoberta de Pitigliano, em Itália, ou de Mardin, na Turquia — mas mais barata e bem mais surpreendente.
O general romano Lúcio Apustíu tomou Antipatreia em 200 a.C., matou os homens em idade militar e queimou a cidade — episódio relatado por Lívio. A fortaleza foi reconstruída em época tardo-antiga, capturada pelo Primeiro Império Búlgaro de Presian I e renomeada “Belgrad” (cidade branca), retomada por Bizancio e tomada em 1417 pelos otomanos. Em 1455, Skanderbeg liderou 14.000 homens num cerco fracassado contra a guarnição otomana de 40.000. No século XVI, o pintor de ícones Onufri — padre nascido na região de Berat — introduziu aquilo a que os historiadores de arte chamam “vermelho de Onufri”, um pigmento brilhante cuja receita exacta nunca mais se recuperou. Os seus painis datados de 1547 estão preservados no Museu Iconográfico Onufri, dentro do castelo.
A história contemporânea trouxe outros marcos: a 22 de outubro de 1833, a revolta de Berat peticionou à Sublime Porta contra a brutalidade da guarnição otomana — sinal precoce de colapso provincial. Em outubro de 1944, o Conselho Antifascista de Libertação Nacional reuniu em Berat e formou o primeiro governo provisório da Albânia, sob Enver Hoxha. É espantoso pensar que a história comunista da Albânia começou nesta mesma cidade dorada que hoje recebe turistas com Vespa.
O Castelo (Kalaja) é um dos poucos castelos da Europa ainda habitados — cerca de 100 famílias vivem dentro das muralhas, em casas otomanas. É sempre aberto, gratuito a quem entra a pé e cobra apenas a quem leva carro. Lá dentro encontram-se a Catedral da Dormição (que aloja o Museu Onufri, 400 lek), a igreja Nossa Senhora de Vlachë e a igreja da Santíssima Trindade, visível já a partir do bairro de Mangalem. As vistas sobre o rio Osum e os bairros gemelos da cidade baixa são memoraveis ao pôr-do-sol. Reserve duas a três horas para o castelo.
Em baixo, atravesse a ponte de pedra de Gorica (1780) e percorra o bairro homónimo, mais quieto. Visite a igreja de São Tomas e o pequeno museu etnográfico em Mangalem (300 lek). A Mesquita do Rei Bayazid II e a Mesquita de Chumbo (Plumbi) merecem visita pelo seu interior. Para quem aprecia mercado tradicional, a feira aos sábados de manhã enche o centro com produtos da Myzeqe.
A região produz vinho há dois milénios, mas só nos últimos 20 anos as adegas locais conquistaram reconhecimento internacional. Çobo, Alpeta e Nurellari fazem prova directa: castas locais como Shesh i Bardhë, Shesh i Zi e Vlosh, mas também Cabernet, Merlot e Syrah em interpretações supreendentemente sérias. Cada uma destas adegas recebe visitantes com prova — reserve através da Excursão a Berat com prova de vinhos, que organiza tudo num único dia com motorista, guia e ṕrovas em duas adegas distintas.
De Lisboa ou Porto, voar para Tirana via Roma, Milão, Viena ou Istambul. De Tirana, microbuses regulares (450 lek, 2 horas) ou autocarros directos. Para grupos, vale a pena alugar carro ou contratar transfer privado. Da Riviera albanesa (Saranda) são 4 horas de carro pela A2 e SH4.
Berat funciona perfeitamente como base para 2–3 dias, combinando cidade-museu, adegas e o cânion do Osum em Çorovodë. Para um itinerário mais largo, recomendamos o Tour privado Albânia 6 dias — UNESCO, que inclui Berat junto com Tirana, Gjirokastër, Butrinto e a Riviera. Para a visão panorâmica do sul — vinho, rio Vjosa, lago Ohrid —, considere o Sul da Albânia: Riviera–Vjosa–Ohrid.
É possível dormir dentro do castelo? Sim, várias casas otomanas dentro das muralhas funcionam como guesthouses (Hotel Mangalemi, Castle Park) por 50–80 euros a noite.
Em quantos dias se vê Berat? Um dia para a cidade, dois para incluir adegas e arredores. Três se quiser fazer o cânion do Osum.
Como são os preços do vinho? Provas em adega: 8–15 euros por pessoa com 4–6 vinhos. Garrafas para levar: 5–15 euros consoante a casta. Muito razóaveis em comparação com Doces de Portugal ou Brasil.
Berat é acessível a quem tem mobilidade reduzida? O bairro de Mangalem e o castelo têm ladeiras íngremes em pedra. Gorica é mais plana. As adegas, sim.
Em julho de 1455 Skanderbeg lançou contra Berat um dos cercos mais ambiciosos da sua carreira: 14.000 homens contra uma guarnição otomana de 40.000. A operacão tinha o apoio do reino de Nápoles — o rei Afonso V de Aragão, que dominava então a costa adriática italiana, enviou reforços e artilharia. O cerco fracassou após seis semanas; Skanderbeg perdeu a maioria dos seus oficiais experientes na batalha de Berat e Berat ficou em poder otomano até 1912. Uma curiosidade que liga a história portuguesa: a notícia da derrota chegou ainda nesse mesmo ano à corte de Lisboa, já então atenta às campanhas cristãs contra os otomanos. Os arquivos da Torre do Tombo guardam referências às tropas balcânicas de Skanderbeg que circularam na corte de D. Afonso V. É um daqueles fios frágeis mas surpreendentes que liga a história de Berat ao mundo lusófono e à expansão portuguesa do século XV.
Talvez o momento mais memorável de qualquer visita a Berat seja a transição entre o pôr-do-sol e a primeira hora da noite. Os bairros gemelos de Mangalem e Gorica acendem-se gradualmente, janela por janela, e as pedras pretas do castelo iluminam-se por dentro. É nessa altura que se compreende por que os fotógrafos de viagem chamam Berat de “cidade que respira”. Os cafés da Praça Teodor Muzaka enchem-se com o ritual da xhiro — o passeio social do entardecer praticado em quase todas as cidades albanesas —, momento ideal para se sentar com uma cerveja Tirana ou Korca e ver passar a vida da província. Para fotografias melhores, suba ao mirante do Norte do castelo cerca das 18h30 em junho ou 17h00 em outubro: a luz incide sobre Mangalem em ângulo perfeito.
Berat fica a 60 metros de altitude e tem clima mediterrânico continental: verão quente (33–37ºc em julho), inverno fresco. Melhor época: maio, junho, setembro e outubro. Calçado de sola fixa essencial. Caixas multibanco no centro. Vinho directamente do produtor: 4–10 euros a garrafa. Wi-fi quase universal nos restaurantes. Para mover-se entre Mangalem e Gorica, atravesse a ponte histórica de pedra a pé — 4 minutos. Os táxis cobram apenas 200–300 lek por trajectos no centro. Para grupos, alugar carro em Tirana e devolver em Berat é opção económica (40–60 euros/dia).
How it works
Ouça o audio tour gratuito — ou reserve uma experiência com guia privado.
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