Os Alpes Albaneses — as Montanhas Acursadas — escondem a melhor caminhada dos Balcãs. Guia completo: Theth, Valbona, lago de Komani, ferries e logística.
Para o viajante português treinado em Peneda-Gerês e habituado aos cumes do Alvao, os Alpes Albaneses oferecem uma experiência que ainda hoje não existe na Europa Ocidental: a sensação de descobrir uma montanha que poucas centenas de portugueses por ano alguma vez viram. As Bjeshkët e Nemuna — as Montanhas Acursadas — são os últimos cumes calcários da cordilheira dinárica e o cenário do trekking mais famoso dos Balcãs. A aldeia de Theth (cerca de 750 metros de altitude) e o vale de Valbona, com a Maja Jezercë a 2.694 metros, estão em lados opostos de um único passo glaciar e ligam-se por uma travessia a pé de 15 a 17 quilómetros, 6 a 8 horas. Não há estrada entre os dois — e é isso que torna a experiência singular.
A inglesa Edith Durham descreveu Theth na primeira década de 1900 como um bariak (distrito de clã) com cerca de 180 casas, já então livre da prática das vendetas de sangue. Outros viajantes pioneiros incluem a jornalista americana Rose Wilder Lane e o paleontólogo húngaro Franz Nopcsa. O albanologista Robert Elsie, que traduziu mais literatura medieval albanesa do que qualquer outro estudioso moderno, está sepultado no cemitério de Theth. A Igreja de Pedra de Theth, datada de 1892, continua a ancorar a aldeia.
Em janeiro de 2016, os habitantes de Valbona souberam de planos para construir 14 centrais hidroeléctricas em cerca de 30 km do rio Valbona, incluindo dentro do parque protegido. Nasceu o movimento “Mos ma prek Valbonën” (Não toques no meu Valbona) — uma das mobilizações ambientais mais importantes da história recente da Albânia. Os dados demográficos contam outro lado: as aldeias Çerem e Rragam perderam, respectivamente, 63% e 57% da população entre 1995 e 2002. Hoje, as quatro aldeias do vale (Dragobi, Çerem, Valbonë e Rragam) somam apenas 817 residentes.
O percurso atravessa o Passo de Valbona, a 1.795 metros, e vai sempre num sentido fixo (Theth para Valbona ou vice-versa). Considera-se moderado a difícil: 1.000 metros de subida cumulativa e 1.200 metros de descida. Época: do final de maio ao final de outubro — fora destes meses, a passagem fica fechada por neve. Os trilhos estão bem marcados, com setas brancas e vermelhas, e ao longo do caminho há cafés de montanha onde se compra água, chocolate e raki por 1–2 euros. As mulas que transportam mochilas custam cerca de 25 euros por bagagem. Levar botão de segurança, telefone com bateria carregada e protecção solar (mesmo em setembro).
Em Theth, vale a pena dedicar um dia extra à cascata de Grunas (1 hora de marcha), à piscina natural Blue Eye de Theth (3 horas ida-e-volta) e à célebre Kulla e Ngujimit — a torre de reclusão do Kanun, código medieval que regulava as vinganas de sangue até ao século XX. Em Valbona, suba ao Maja e Rosit ou ao Maja e Persllopit para vistas absolutas sobre o vale.
A entrada clássica é pelo lago de Komani, um espelho de água artificial criado pela barragem do Drin que percorre desfiladeiros assombrosos. Às 09h00 sai um ferry turístico (cerca de 12–15 euros, 2h30) que liga a barragem de Koman a Fierza, onde minibuses fazem a continuação até Valbona em 1h30. Em alternativa, a partir de Shkodra há transfer rodoviário directo até Theth (3 horas, estrada nova asfaltada em 2022). De Tirana ou de Lisboa o caminho é sempre via Tirana — voos com escala em Roma, Milão ou Viena, transfer até Shkodra (2 horas) e dali aos Alpes.
Para quem não queira lidar com toda a logística de minibuses, ferries e mulas, o Alpes albaneses — 3 dias em Theth é o pacote ideal: três dias com motorista privado, guesthouse familiar e refeições típicas incluídas. Para combinar os Alpes com o resto do país num plano mais completo, considere o Tour privado Albânia 6 dias — UNESCO — que liga o norte ao sul em seis dias.
Em Theth, as guesthouses tradicionais (Bujtina Polia, Tradita, Rupa) servem dormida com pequeno-almoço e jantar caseiro por 30–40 euros por pessoa. Em Valbona, há opções semelhantes (Rilindja, Quku i Valbonës) com preços equiparados. As refeições incluem queijos da região, leitão assado, fli em camadas, vegetais marinados e raki da casa. Reserve com antecência em julho e agosto — a oferta é limitada.
É perigoso fazer a travessia sem guia? Não, em época alta o trilho está bem marcado e há sempre outros caminhantes. Em maio, junho ou outubro, contudo, com tempo instável, contratar guia local (40–60 euros) é boa política.
Os Alpes Albaneses são adequados para crianças? Para crianças a partir dos 10–12 anos, sim, com mochila ligeira. Abaixo dessa idade, escolha caminhadas curtas como Grunas ou Blue Eye em Theth.
Vale a pena fazer só Theth ou só Valbona? Vale, sobretudo Theth, que tem mais cascatas e percursos curtos numa área pequena. Valbona pede mais ambição de marcha.
O que vestir? Camadas. Técnico respirável, casaco impermeveínvel e botíes de caminhada com tornozelo. Mesmo em julho a temperatura no Passo de Valbona pode descer abaixo dos 10ºc.
Há um pormenor que nenhum guia em inglês costuma assinalar mas que faz sentido recordar para o leitor português: até à década de 1990, esta região esteve total e literalmente fechada ao mundo. O regime de Enver Hoxha proibia não só a entrada de estrangeiros como a saída dos próprios habitantes — à fronteira com a Jugoslávia, ali a poucos quilómetros, era zona militar. Quando a abertura chegou em 1991, os Alpes Albaneses ressurgiram intactos, sem hotéis em altura, sem estâncias de ski, sem fast-food, sem telefféricos. Isso explica o impacto de chegar cá hoje: é talvez a única região europeia onde se sente verdadeiramente que se viaja para trás no tempo, com menus em quadro de ardosia, dormindo em casas onde a laçeira ainda é acesa todas as noites para aquecer a sala. Para portugueses que cresceram com a serra do Gerês e sentem nostalgia do Portugal rural pré-turístico das décadas de 1970 e 1980, esta é paragem que toca fundo.
A região de Theth ficou conhecida pelo Kanun de Lekë Dukagjini, código de leis tradicionais escritas no século XV mas com origens mais antigas. O texto regulava casórios, fronteiras, hospitalidade e — sobretudo — as vinganças de sangue (gjakmarrja) entre clãs. As famílias visadas por uma vingança podiam recolher-se na Kulla e Ngujimit, a torre de reclusão, onde permaneciam até que a paz fosse mediada pelos pleiqs (anciões). A torre de Theth, restaurada como museu, mantém a sua aura trágica. Vale uma visita demorada — e uma conversa com a guesthouse onde estiver — para entender uma código que sobreviveu ao comunismo e que, em formas atenuadas, ainda hoje se discute em zonas profundas dos Alpes.
Não há caixas multibanco em Theth nem em Valbona — leve euros e lek em dinheiro. Sinal móvel é fraco no fundo do vale e quase ausente no passo. Existe wi-fi nas guesthouses. Energia eléctrica estável mas leve power bank. Água das nascentes e ribeiros é potável — albaneses bebem-na directamente — mas viajantes mais cautelosos preferem garrafa.
How it works
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