Descubra Shkodra: o castelo de Rozafa, o maior lago do sul da Europa e a porta de entrada para os Alpes albaneses. História, fotografia e ciclismo.
Onde se cruzam o rio Drin e o rio Buna, debaixo da silhueta calcária do castelo de Rozafa e à beira do maior lago do sul da Europa, está a cidade que muito viajante português considerará, ao chegar pela primeira vez, a verdadeira surpresa da Albânia. Shkodra (61.633 habitantes em 2023) é a capital cultural do norte albanês, está habitada continuamente desde a Idade do Bronze antiga (c. 2250–2000 a.C.) e fundada como centro urbano ilírio no século IV antes de Cristo. A 100 quilómetros e 90 minutos de Tirana pela auto-estrada SH1, é também a porta de entrada para os Alpes Albaneses — destino de exploração por excelência para quem está cansado dos circuitos suburbanos do Tirol ou dos Alpes franceses.
Os reis ilírios fizeram brevemente de Shkodra a sua capital antes da derrota perante Roma em 168 a.C. Foi também aqui que, em 1474, os otomanos enfrentaram a sua maior dificuldade na conquista da Albânia: o cerco de Shkodra ficou descrito por Marin Barleti no famoso “De obsidione Scodrensi”, lido em toda a Europa renascentista. Quando finalmente caiu em 1479, a fortaleza foi ocupada pelos otomanos até 1913. As balas de canhão que ainda hoje se vêem encrustadas nas muralhas exteriores datam dessas batalhas.
Para o viajante interessado em fotografia — e os portugueses que cresceram com a Magnum e com Eduardo Gageiro reconhecem-se neste fascínio — Shkodra é a meca albanesa. A dinastia Marubi, fundada por Pietro Marubbi (1834–1903), um italiano refugiado em Shkodra, retratou a sociedade albanesa do norte durante 150 anos. O Museu Marubi de Fotografia, na rua principal pedonal, exibe rotativamente parte das 500.000 imagens do arquivo — das sátiras otomanas à vida quotidiana sob o comunismo. Custa 700 lek e abre terça a domingo das 09h00 às 18h00.
O Castelo de Rozafa, sobre uma falsa de calário a 130 metros sobre o rio Buna, é a primeira paragem. Custa 400 lek, abre todos os dias das 08h00 ao pôr-do-sol e exige 90 minutos para vê-lo todo. A lenda da mulher emparedada viva nas fundações — condição que os mestres pedreiros teriam exigido para que a obra não desabasse — é conhecida em todos os Balcãs. Do alto vê-se a planura do lago de Shkodra (370 km², partilhado com o Montenegro), o vale dos Drin e do Buna a juntarem-se, e a cúpula da Catedral de Santo Estevão, segunda igreja católica do país.
Na cidade, percorra a Rua Kolë Idromeno — antiga rua dos sapateiros, hoje pedonal e cheia de cafés. Visite a mesquita de Ebu Beker, a Catedral católica (Shkodra é a cidade mais católica da Albânia, fruto da história de evangelização franciscana), o Site Memorial dos Mártires e o Museu Histórico, instalado numa casa otomana com pátio.
O caminho clássico é voar Lisboa–Tirana via Roma, Milão ou Viena (200–300 euros ida-e-volta) e dali subir 100 km. Microbuses partem do terminal norte de Tirana a cada 30 minutos, custam 350 lek e demoram cerca de duas horas. Para quem chegue dos Balcãs, há ainda autocarros diários desde Podgorica, no Montenegro (cerca de 90 minutos), e desde Pristina, no Kosovo (4 horas). De carro, a auto-estrada SH1 é boa e segura.
Aqui começam as duas grandes aventuras do norte albanês. Para os Alpes, partem todas as manhãs minibuses para Theth (3 horas) e ferries pelo lago de Komani até Valbona (8 horas porta-a-porta). Para uma incursão profunda na região, recomendamos o Alpes albaneses — 3 dias em Theth — três dias com motorista e guesthouses tradicionais. Para combinar com Tirana e o sul, considere o Tour privado Albânia 6 dias — UNESCO.
Shkodra tem hostels excelentes (Mi Casa Es Tu Casa, Wanderers) e vários B&Bs em casas tradicionais por 30–60 euros a noite. Para jantar, o restaurante Tradita, instalado num antigo armaém à beira do Drin, serve carne de cordeiro cozinhada na lareira aberta e queijos da região de Lezha. Preço médio: 12 a 15 euros por pessoa com vinho.
Com 370 km² partilhados entre a Albânia e o Montenegro, o lago de Shkodra (Liqeni i Shkodrës em albanês, Skadarsko Jezero do lado montenegrino) é paraiso de avifauna — alberga mais de 280 espécies de aves, das quais 9 ameaçadas globalmente. Os pelicanos cretinos, raí±ssimos, podem avistar-se aqui em época migratória. As aldeias da margem, especialmente Shiroka e Zogaj, conservam tabernas onde se serve a especialidade local: o krap (carpa) grelhado em pedra quente. É muito possível alugar uma canoa por 5 euros a hora ou contratar uma pequena travessia em barco a motor até à Igreja de São Nicolau, encravada numa península. Para o português habituado às lagoas das Berlengas ou da Albufeira, este lago oferece escala completamente diferente — aqui vê-se realmente o horizonte de água doce mais imenso da Europa mediterrânica.
Dia 1: chegada em Tirana de manhã e transfer até Shkodra. À tarde, visita à Catedral, ao centro histórico pedonal e ao Museu Marubi. Jantar no restaurante Tradita. Dia 2: subida ao castelo de Rozafa logo às 08h00 (luz fotográfica espectacular), regresso ao centro para almoço ligeiro. À tarde, deslocamento até Shiroka para passeio de barco no lago e pôr-do-sol nas tabernas da margem. Dia 3: bicicleta pelo trilho do lago até à fronteira com o Montenegro (30 km ida, parte plana), ou então transfer matinal para Theth pelos Alpes Acursados. Para quem prefere itinerário organizado, o Alpes albaneses — 3 dias em Theth resolve essa transição de logistíca difícil.
Talvez nenhum aspecto de Shkodra interesse mais ao viajante português do que a sua resistência católica. Sob o regime ateísta de Enver Hoxha (1967–1991), todas as religiões foram proibidas e a Catedral de Shkodra foi convertida em pavilhão desportivo. Padres e bispos foram presos, executados ou enviados para campos de trabalho. Em 1991, com a queda do regime, milhares de fiéis reuniram-se na catedral parcialmente destruída numa missa que ficou na história balcânica. João Paulo II visitou Shkodra em 1993, primeiro Papa a entrar na Albânia, e Francisco fez o mesmo em 2014. As cripta dos mártires da Catedral, gratuita e sempre aberta aos visitantes, comemora os 38 sacerdotes beatificados em 2016. Para portugueses católicos ou simplesmente curiosos, é paragem que toca fundo.
Quantos dias passar em Shkodra? Um dia chega para a cidade. Acrescente outro se quiser explorar o lago e a aldeia de Shiroka. Para os Alpes, calcule mais 3 a 5 dias.
Dá para fazer ciclismo no lago de Shkodra? Dá, e é das melhores experiências do norte albanês. Aluguer de bicicletas a 10 euros por dia. O percurso plano pela margem albanesa estende-se por 30 km até à fronteira do Montenegro.
É preciso visto para entrar a partir do Montenegro? Não, há livre circulação para portugueses e brasileiros nas duas direcções. Tenha o passaporte à mão.
Shkodra ou Tirana para um primeiro contacto com a Albânia? Tirana se quer cidade vibrante e museus do período comunista; Shkodra se procura o lado mais autêntico, religioso e atlético do país.
Clima: verões tórridos (32–36ºc em julho e agosto) e invernos chuvosos. Melhor época: maio, junho e setembro. Cuidado com mosquitos junto ao rio Buna em pleno verão. Bicicleta é o transporte rei dentro da cidade — muitos hotéis emprestam gratuitamente. Conexão móvel 5G já disponível no centro.
How it works
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