Gjirokastër, cidade UNESCO de pedra: fortaleza dos Balcãs (400 ALL), Casa de Skenduli, Liga de 1880, Olho Azul a 36 km e a casa onde Enver Hoxha nasceu.
Há cidades que parecem talhadas de uma única pedreira. Gjirokastër é uma delas. Trepada nas vertentes do vale do Drino, a oito quilómetros da fronteira grega, esta cidade de quase vinte mil habitantes empilha telhados de lousa cinzenta sobre paredes brancas de calcário até a fortaleza, no topo, parecer não um castelo mas a continuação geológica da montanha. A UNESCO inscreveu-a como Património Mundial em 2005, em conjunto com Berat. Para o viajante português, é o equivalente albanês daquilo que Marvão ou Sortelha são em Portugal: uma fortaleza-cidade onde cada casa é, ela própria, uma pequena fortificação.
O nome surge pela primeira vez em 1336 em textos do imperador bizantino João VI Cantacuzeno como Argyrókastron, "fortaleza prateada". A família albanesa Zenebishi controlou-a a partir de finais do século XIV — Gjon Zenebishi derrotou aqui Esau de' Buondelmonti em 1399 — e em 1418 a cidade rendeu-se aos otomanos depois de cerco prolongado. A revolta de Skanderbeg trouxe um segundo cerco em 1432–1436, comandado por Depë Zenebishi.
O peso político moderno é igualmente denso. A 23 de Julho de 1880 a cidade hospedou um congresso da Liga de Prizren, movimento do Renascimento Nacional. A primeira escola albanesa abriu aqui em 1908. Entre 1914 e 1916, Gjirokastër foi a capital da efémera República Autónoma do Norte do Epiro, alinhada com a Grécia. E a 16 de Outubro de 1908 nasceu, numa casa de pedra do bairro de Palorto, Enver Hoxha, o homem que viria a governar a Albânia comunista de 1944 até à sua morte em 1985.
A Fortaleza de Gjirokastër domina a cidade de uma crista de 300 metros. Aberta diariamente das 09:00 às 19:00 no Verão e até às 17:00 no Inverno; entrada 400 ALL (cerca de 4 euros). Lá dentro: uma galeria abobadada com peças de artilharia italiana e alemã capturada, um caça T-33 norte-americano abatido em 1957 (cuja presença alimentou a paranoia de Hoxha sobre o ocidente), o museu da cidade e vista panorâmica sobre o vale.
Desça depois para o bazar otomano, com as suas oficinas de tecelagem, ourivesaria de filigrana e tapetes. Visite a Casa de Skenduli (300 ALL) e a Casa de Zekate (200 ALL), duas das melhores casas-torre otomanas dos Balcãs — galerias de madeira, tectos pintados, divisões para Verão e Inverno. A Casa-museu Enver Hoxha, hoje Museu Etnográfico (200 ALL), ocupa o edifício onde o ditador nasceu — uma curiosidade histórica desconfortável.
A 36 quilómetros de Gjirokastër, na descida para Saranda, fica o Olho Azul (Syri i Kaltër) — uma nascente cárstica de 50 metros de profundidade conhecida cuja água sai a 10 °C com uma cor de iris azul-turquesa. Entrada 50 ALL por pessoa, 200 ALL por carro. O acesso final faz-se por estrada de terra de 2 km. Combine com Gjirokastër num só dia.
De Lisboa, voe para Tirana via Roma, Milão, Viena ou Istambul (180–320 euros ida-volta época baixa). Tirana–Gjirokastër são 223 km / 3 horas em viatura própria pela SH4, ou 7 a 8 euros por autocarro a partir do terminal sul (4 horas). Em alternativa, voe para Corfu (Grécia) e apanhe o ferry para Saranda (35 minutos, 25 euros) e dali um autocarro até Gjirokastër (1 hora, 5 euros). Para passageiros do Brasil, Turkish via Istambul é o trajecto natural.
Gjirokastër é ponto-chave de qualquer circuito do sul. Recomendamos o Riviera albanesa, Butrinto e Gjirokastër, que combina Riviera, Butrint UNESCO e a cidade de pedra. Para quem queira o país inteiro num só pacote, o Tour privado Albânia 6 dias — UNESCO cobre Gjirokastër, Berat, Krujë e o litoral. E para descobrir a região do Vjosa partindo do sul, considere o Sul da Albânia: Riviera–Vjosa–Ohrid.
Hotel Çajupi (centro, 60 euros), Stone City Hostel (orçamento, 18 euros em dormitório), Kerculla Resort (vistas, 90 euros). A cozinha local destaca-se pelo qifqi, bolinhos de arroz com hortelã e ovo característicos da cidade, e pela pasha qofte, almôndegas com molho de iogurte. Restaurantes recomendados: Taverna Kuka, Odaja, Tradita.
Para o viajante português, há um diálogo silencioso entre Gjirokastër e Lisboa. Hoxha governou a Albânia entre 1944 e 1985 — quase exactamente o período que vai de Salazar (1932–1968) a Marcelo Caetano (1968–1974). Os dois regimes eram ideologicamente antagónicos, mas partilhavam um isolamento intencional do exterior, uma polícia política omnipresente (Sigurimi e PIDE) e uma obsessão por preservar identidades nacionais "puras". A Albânia rompeu com a União Soviética em 1961 e com a China em 1978, ficando sozinha. Portugal abriu-se em 1974 com a Revolução dos Cravos; a Albânia teve de esperar até 1991. Visitar Gjirokastër é visitar uma versão paralela, mais extrema e mais demorada, daquilo que poderia ter acontecido a Portugal se a transição tivesse falhado.
Quanto tempo precisa em Gjirokastër? Um dia chega para a fortaleza, casas-museu e bazar; dois dias permitem incluir o Olho Azul e Antigoneia.
É possível ver Gjirokastër como excursão de um dia desde Saranda? Sim, são 60 km / 1 hora; os autocarros locais ligam ambas as cidades várias vezes por dia.
Pagam-se as entradas em euros? Aceitam, mas a taxa de câmbio é desfavorável. Pague em lek sempre que possível.
O bazar funciona ao domingo? Sim — é aliás o dia mais animado, com mercado e cafés cheios.
O escritor mais traduzido da Albânia, Ismail Kadare (1936–2024), nasceu em Gjirokastër e fez da cidade o cenário recorrente da sua obra — sobretudo em Crónica em Pedra (1971), retrato autobiográfico de uma infância sob ocupações italiana, alemã e finalmente comunista. Os leitores portugueses conhecem-no através das traduções da Don Quixote: O General do Exército Morto, O Palácio dos Sonhos, A Pirâmide. Visitar Gjirokastër depois de ler Kadare transforma a experiência: cada calçada, cada casa-torre, cada janela com gelosias remete para um capítulo. A casa onde Kadare cresceu, no bairro de Palorto, é hoje um museu literário (200 ALL, 09:00–17:00) com a sua biblioteca pessoal, manuscritos e correspondência.
A 14 km de Gjirokastër, na encosta oposta do vale do Drino, ficam as ruínas de Antigoneia — cidade helenística fundada por Pirro do Epiro em 295 a.C. e baptizada em honra da sua primeira esposa Antígona. Saqueada pelos romanos em 167 a.C. e nunca reconstruída, é hoje um parque arqueológico com muralhas, casas, ágora e vista panorâmica sobre Gjirokastër ao longe. Entrada 200 ALL (2 euros), aberto 09:00–18:00 no Verão. Pouquíssimos visitantes — uma das visitas mais tranquilas da arqueologia balcânica.
Cada cinco anos, geralmente em Setembro, Gjirokastër acolhe o Festival Folclórico Nacional — o mais importante encontro de música tradicional albanesa, fundado em 1968. Grupos de todas as regiões (Vorio Epirus, Lab, Tosk, Shkodra) sobem ao palco da fortaleza durante uma semana, com cantos polifónicos a duas, três e quatro vozes — tradição inscrita na Lista do Património Imaterial da UNESCO em 2005. Para o viajante português, soa-lhe simultaneamente próxima e estranha: a polifonia lab tem ressonâncias que o ouvido alentejano reconhecerá, sobretudo no canto a duas vozes masculinas com bordão grave. Bilhetes 5–15 euros; programa completo em gjirokastrafolkfestival.al. Mesmo fora do festival, as tabernas da cidade têm música ao vivo às sextas-feiras à noite.
Moeda: lek albanês. Caixas multibanco no centro. Conexão 4G boa. Inverno frio (mínimas próximas de 0 °C, neve possível em Janeiro); Verão quente seco (35 °C). Calçado robusto: as ruas calcetadas têm declives fortes e pedra polida pelo uso. Tomadas tipo C/F. Línguas: albanês oficial, italiano e grego frequentes, inglês nos hotéis.
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